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História de vida: jornalista relata dias de aflições com Covid-19 por conta da alergia aos antitérmicos

Por Carlos Madeiro/UOL

O Blog Kléverson Levy republica uma matéria extraída do site UOL. Foi um grande depoimento da jornalista Vanessa Alencar para o também jornalista e alagoano, Carlos Madeiro, como colaboração para página Universa que é um portal totalmente dedicado às mulheres.

Serve, portanto, como alerta o relato que há um diferencial, dentre tantos outros casos, já que Vanessa é alérgica a todos os antitérmicos. Os dias de aflição e tormento foram duradouros, principalmente, no leito de um hospital.

Leia matéria completa abaixo!

Os sintomas inicialmente leves (tosse seca, dores na cabeça e no corpo, coriza e fadiga) começaram na noite do sábado de Carnaval (13 de fevereiro) e na terça seguinte o exame confirmou a covid-19.

Segui os protocolos de saúde para evitar a contaminação, não estou no grupo de risco e não tenho comorbidades. Ou seja, os prognósticos eram bons. Mas a doença, imprevisível e traiçoeira, simplesmente evoluiu, comprometendo pulmões, causando muita tosse e febre alta.

Mas há um detalhe na minha história que fez enorme diferença no tratamento dos sintomas: sou alérgica a todos os antitérmicos (sim, até ao inocente paracetamol) e aos mais simples remédios para dor.

“Sou alérgica a medicamentos e tive que superar Covid-19 com febre de 39º”

Vanessa Alencar.

Apenas corticoides conseguem baixar minha febre e, para dores fortes, conto somente com o Tramal e derivados. Os remédios orais para baixar a febre (corticoides) não estavam surtindo efeito na forma oral — até porque eles não são pra isso, não são antitérmicos.

Apesar da medicação possível, a evolução da covid-19 seguiu o baile, até que, na madrugada da sexta 25 de fevereiro, fui internada. O fato de ser alérgica a medicamentos foi crucial para a decisão dos médicos pela internação.

Fotos: Cortesia para o Blog Kléverson Levy

Mesmo hospitalizada e com corticoide na veia, ainda tive uns dois dias de febre alta (acima de 39º) e precisei de compressas geladas no corpo, porque simplesmente não tinha mais o que fazer para baixar a febre.

“No hospital, não tinha forças para nada e cheguei a usar fralda”

Vanessa Alencar.

Nesses quase dez dias no hospital estive numa espécie de “limbo”, convivendo com a angústia, o medo e extremamente próxima das dores dos outros. Coisas simples como respirar, ir ao banheiro, comer, se tornaram difíceis entre tanto cansaço, fios nos braços, acessos para medicação perdidos devido à fragilidade das veias e várias coletas de sangue durante o dia. Precisei usar fralda para evitar o esforço de sair da cama.

“No hospital, me impus um limite que não consegui cumprir todos os dias (ser jornalista não ajuda nessas horas): evitar os noticiários da TV. As lágrimas desciam com os fatos e relatos. Não eram estatísticas. Eram vidas, perdidas e transformadas pela covid-19. E eu estava ali, como personagem e espectadora”.

Vanessa Alencar.

Chorei com os médicos que tinham que escolher, da tela de um computador, quem tentar salvar com apenas uma vaga para a UTI e inúmeras pessoas na “disputa”.

Chorei com o atraso criminoso na vacinação, com o descaso inacreditável; e chorei com a exaustão vista nos olhos, por trás das máscaras, dos profissionais de saúde que tão bem cuidaram de mim. Senti vontade de agradecê-los mil vezes e de pedir perdão outras mil vezes.

Entre um pico e outro de febre, sinto que vi um pouco sob o véu de Isis, quando os mundos visíveis e invisíveis se tocam, se encontram. Rostos deste e do outro plano desfilaram no meu sono agitado. Havia uma espécie de cortina com bico de renda cor da pele que balançava de leve com o vento. Olhava para ela. Era como se fosse o divisor desses dois mundos: frágil, leve, suave. Olhar para ela e acompanhar seu movimento me acalmava estranhamente.

“Senti também uma espécie de dissociação do meu corpo. Estava lá, mas era como se não tivesse. Era só massa. A energia parecia ter sido retirada provisoriamente e guardada em um cantinho, até poder ser devolvida à “caixa”.

Vanessa Alencar.

Recebi alta no sábado 6 de março após quase dez dias internada. Dez dias nos quais não esquecerei — dentre tantas experiências — quem esteve literalmente ao meu lado: meu marido. Ele pausou a própria vida e se mudou comigo para o hospital, segurando minhas mãos, enxugando minhas lágrimas e repetindo: “Calma, tudo vai dar certo”.

“Nos braços, observo as marcas físicas da internação” / Fotos: Cortesia

Em casa, ainda sinto cansaço e a vista escurece com qualquer esforço maior. A médica disse que devo manter repouso para, aos poucos, bem aos poucos, ir voltando à rotina. A recuperação é mais lenta para alguns, mas vai acontecer. Um dia de cada vez.

“Marcas da internação nos meus braços serão eternas na alma”.

Vanessa Alencar.

Quando voltei, lembrei também que, cerca de uma noite antes dos primeiros sintomas da covid-19, sonhei com meu pai, falecido em 2014. Estávamos dentro de um carro de passeio, no fundo do mar e precisávamos atravessar…Eu não entendia as razões e questionava: “Pai, por que não vamos pela superfície?”.

Ele só respondia que não era possível, que para atravessar aquilo tinha que ser daquele jeito: “Bote a máscara e vamos lá!”, repetia. “Estou com medo. Muito medo. A água vai entrar…”. “Vamos atravessar isso junto”, ele respondia. Não me lembro da “travessia”. Só me lembro de colocar a máscara e fechar os olhos.

Nos braços, observo as marcas físicas da internação. Na alma, elas serão eternas e precisarei falar sobre elas outras tantas vezes. Na luta contra a covid-19, vislumbrei alguns mundos e transformei o meu. Preciso falar e ouvir sobre isso. Hoje é esta a minha missão.

(Vanessa Alencar, 46 anos, jornalista e escritora alagoana).

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